O dia tinha sido ensolarado. Larissa trabalhou como uma condenada e estava irritada, lembrando-se de coisas que não queria.
Renato convidou Larissa pra passar um tempo com "o pessoal lá em casa".
O pessoal em questão já tinha ido embora mas ainda era cedo.
Ela ainda estava amuada.
"- Acho que as pessoas vão correr pras colinas quando a gente começar a dançar, essa é a verdade."
"- É, pode até ser... mas isso se trata de nós. Não ligo a mínima."
Os dois discutiam há algumas horas sobre o que fazer à noite.
Larissa já estava de saco cheio de tudo há algum tempo, Renato ficava incomodado com a situação há mais tempo que gostaria.
"- Quer saber de uma coisa, Rê? Não vou sair, não. Vou pra casa, assistir um filme, me enterrar na cama. Tô cansada pra cacete, irritada. Chega. Não quero mais ver gente."
"- Sai dessa, mulher! Você sabe que ficar trancada só vai te fazer mal."
"- Ah, cara. De boa, não tô afim. Se a gente for lá eu vou lembrar de todas as vezes que saí com o Marcelo, aí vou ficar toda emotiva, vou chorar e estragar a noite e..."
"- Chega disso, vai! Você tá nessas desde novembro! Não é possível que..."
"- É, é possível sim, oras!"
"- Mas quando é..."
"- Quando eu quiser, porra! Esqueço dele quando eu quiser! Só que agora eu não quero, tá bom? Foi o melhor que eu conheci, é o cara perfeito! Só esqueço dele quando tudo estiver certo! Quando estivermos juntos! Pronto."
Silêncio por algum tempo.
Renato achou aquilo muito estúpido, mas esperou.
Larissa repetiu mentalmente todo o diálogo, achou igualmente estúpido.
"- Que merda, né?"
"- Finalmente!"
"- Finalmente!"
"- Pára com isso! Você nunca namora ninguém, nunca se apega... Não sabe como é ruim quando acaba."
"- Bom pra mim."
"- Ótimo."
Estavam tão próximos. Ela respirava lentamente e observava o nada. Ali, parada, deitada em seu colo. Apesar dos pesares, tudo estava bem.
"- Me abraça."
"- Tá carente agora, é?"
"- Claro que não, panaca. É que... eu gosto do jeito como a gente encaixa."
O abraço.
"- Viu? O encaixe é perfeito."
"- Eu sei. A mãe natureza me fez assim, todo perfeito pra você."
Risadas histéricas.
"- Você é um louco."
"- Olha só quem fala!"
"- Foi um elogio, de certa maneira."
"- Imagino. Sendo o cara perfeito que sou, eu já sabia."
Um tapa de leve no ombro dele. Troca de olhares. Um silêncio gostoso.
Carinho. Sorrisos.
"- Fica por aqui hoje, Lari?"
"- Pra sempre, se você quiser."
Tudo vai ficar bem. Sempre fica.

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